Este artigo propõe conexões parciais entre os modos dos Sateré-Mawé, povo do tronco Tupi habitante do Baixo Amazonas, de manejo dos dispositivos de interculturalidade na produção de utopias políticas e educacionais guiadas pelo complexo do Guaraná no contexto da formação no Ensino Superior, e os modos dos Tuxá, do Submédio São Francisco (BA), de, por meio do “complexo ritual da ciência”, articular a autodemarcação de suas terras, projetos de revitalização linguística e o estabelecimento de redes cosmopolíticas heterogêneas. Evidenciamos como projetos políticos e educacionais dos coletivos indígenas, conquanto se enredem pelas constrições das estabilizações jurídico-estatais da sociedade nacional que enquadram enunciados por direitos, acionam também agências múltiplas de diferentes regimes ontológicos, que desestabilizam categorias e promovem encontros os mais diversos. Assim, se os projetos linguísticos e político-pedagógicos dos Tuxá instauram uma dimensão de estudo ao conhecimento da ciência, na qual relações marcadas pela cautela com os encantados, seres mais-que-humanos, são determinantes para o acesso à língua e ao complexo ritual por meio do qual se compreende a força do território; a busca sateré-mawé pelo acesso à universidade potencializa e energiza redes e práticas políticas que se desenrolam há séculos, atualizando os atributos da chefia e ao mesmo tempo modos de relação com os brancos, mediados pelo professor waranã-sese (o guaraná verdadeiro em oposição ao waranã-rana) e prefigurados nas dicotomias inscritas no Puratig (o remo mágico que se encontra em analogias com a Bíblia, as cartilhas escolares e a Constituição Federal). Em ambos os contextos etnográficos, elementos festivos e rituais – a Dança da Tucandeira para os Sateré-Mawé, a ciência para os Tuxá – delineiam enquadramentos interétnicos ao serem performados em diferentes contextos com intensidades distintas, mas também delimitam saberes restritos, esotéricos, para os quais outras concepções de tradução e compreensão se fazem necessárias.