“LET THE FLESH INSTRUCT THE MIND”: CORPO, DESEJO E SINESTESIA NAS CRÔNICAS VAMPIRESCAS DE ANNE RICE
Na obra da autora norte-americana Anne Rice, questões aparentemente paradoxais como materialidade/espiritualidade, profano/sagrado e natural/sobrenatural, ganham destaque, em enredos que ou orbitam discussões especulativas sobre a origem material do universo e suas possibilidades espirituais ou uma densa reflexão sobre os limites potenciais dos sentidos corpóreos, intensificados pela observação da natureza ou pela apreciação da arte. Isso quando a autora não contrapõe essas duas dimensões, como em A História do Ladrão de Corpos (1992) Lasher (1993), Memnoch (1995) e O Servo dos Ossos (1996), nos quais essas dimensões estão emparelhadas tanto na esfera do enredo quanto na da linguagem. Neste ensaio, nos debruçaremos sobre um desses eixos, aquele que tem a ver com a descrição, compreensão e intensificação dos sentidos corpóreos, esses intensificados pela natureza vampírica de seus protagonistas, em seu primeiro romance Entrevista com o Vampiro (1976). A partir das reflexões de Katherine Ramsland, Jennifer Smith e Terri R. Liberman, entre outros, demonstraremos como, através dos dramas de seus monstros, Rice indiretamente propõe uma intensificação das percepções corpóreas e sensitivas, não apenas no que concerne à percepção da natureza e da arte, como também ao próprio corpo e sua capacidade de perceber/vivenciar/recriar o entorno material.